Existe um momento na vida em que o tempo deixa de ser linear.
Ele se dobra, se comprime, se atropela. O fim do ensino médio foi assim para mim: um período em que os dias não terminavam quando acabavam, e as semanas pareciam nunca caber dentro de si mesmas.
Eu era, ao mesmo tempo, estudante prestes a enfrentar vestibulares decisivos e atleta de alto rendimento, vivendo a preparação para a competição mais importante do ano. Não havia uma coisa depois da outra. Tudo coexistia.
No começo do ano, os treinos já eram intensos. O corpo aprendia cedo que não haveria descanso fácil. Mas foi em novembro que tudo ganhou outra densidade. Como se o calendário tivesse resolvido testar até onde eu aguentava.
Logo no primeiro fim de semana do mês, dias 1 e 2, eu competi. Era o último Paulista antes do Campeonato Brasileiro. Um teste. Um aviso. Sábado e domingo inteiros dentro da piscina, com aquele cansaço que não dói exatamente, ele se acumula. Na semana, a rotina seguia firme: treinos de terça a sábado, quatro horas por dia, às vezes em horários quebrados, algumas segundas-feiras também. E, entre um treino e outro, a escola. Provas, presença, conteúdos. Porque, além de tudo, eu ainda precisava concluir o ensino médio.
Na semana seguinte, vieram os dias 4 e 5. Provão Paulista. Outro vestibular. Outro peso. Antes mesmo de pensar no ENEM, era nisso que eu precisava focar. Estudar, revisar, tentar organizar a cabeça enquanto o corpo ainda carregava a competição recente.
No dia 9, um domingo, fiz o primeiro dia do ENEM. No sábado anterior, treinei das oito da manhã até uma da tarde. Saí do treino com o corpo cansado e a mente tentando se manter desperta. Revisei como deu. Entrei para a prova ainda com o cheiro de cloro preso na memória.
A semana seguinte repetiu o ritmo, quase sem variações. Treinos, escola, estudos. No dia 16, outro domingo, o segundo dia do ENEM. Eu já não contava mais os dias pelo descanso, mas pelo que ainda faltava cumprir.
Enquanto isso, os treinos aumentavam. O Brasileiro se aproximava, e o corpo precisava responder. No sábado, dia 22, tive treino em dois períodos: manhã e tarde. No domingo, dia 23, fiz a Fuvest. Ainda houve a possibilidade de um treino na manhã daquele mesmo domingo. Lembro de precisar explicar o óbvio: não dava para treinar e, logo depois, fazer uma prova importante. Às vezes, sobreviver à rotina também exige enxergar prioridades.
Fiz a prova. Voltei para casa. Arrumei a mala. Segunda-feira, dia 24, ainda teve treino. No dia 25, viajei para o Rio de Janeiro, no horário do almoço. A viagem já trazia aquele silêncio diferente: menos ansiedade, mais concentração.
Treinamos no próprio dia 25. No dia 26, entramos na piscina oficial, com música. Foi um dia de ajustes finos. De olhar nos olhos. De alinhar não só movimentos, mas intenções. Mentalizamos juntas. Nos comprometemos. Sabíamos o que precisava ser feito.
No dia 27, a competição começou. Primeiro dia: equipe técnica. Júnior e sênior. A pontuação se acumulava ao longo das provas. Quando os resultados saíram, percebemos: estávamos em primeiro lugar na júnior. Na sênior, ficamos em segundo, com uma diferença mínima. Não era a nossa categoria principal, mas dizia muito sobre onde estávamos chegando.
Na sexta-feira, nadei meu solo. Criar um solo em apenas um mês não é simples. Exige entrega, confiança e uma conversa constante consigo mesma. Foi difícil, mas foi bonito. Cada ponto importava. No mesmo dia, nadei a equipe livre júnior. Mais uma vez, abrimos vantagem.
No sábado, dia 29, nadei a acrobática júnior. Foi ali que a ficha caiu: éramos campeãs brasileiras. Não por acaso. Por insistência. Por permanência. Por não desistir quando o corpo e a mente já tinham ido longe demais.
À tarde, nadei a equipe livre sênior. Sabíamos que não seria fácil. Do outro lado, atletas mais velhas, seleção adulta. Nós éramos júnior. Ainda assim, nadamos. E passamos.
A sensação não era de euforia imediata. Era de conclusão.
Mas o tempo não parou. Minha competição terminou por volta das 16h30, e eu precisei ir embora no mesmo dia. Aeroporto, voo, espera pela mala, meu pai me buscando em Guarulhos já tarde da noite. Eu estava exausta. Ainda com gelatina no cabelo, sem banho direito. Cheguei em casa, tomei banho e dormi como quem apaga.
No dia seguinte, acordei às 7h. Banho de novo. Café rápido. Paulista. O dia estava lindo, quase em contraste com o cansaço acumulado. Enquanto caminhava em direção à Cásper Líbero, algo dentro de mim estava estranhamente calmo.
Eu estava feliz de estar ali.
Feliz de verdade.
Não era só nervosismo de prova. Era pertencimento. Desde o momento em que entrei no prédio, senti que aquele lugar fazia sentido para mim. Eu gostava de estar ali. Queria estar ali. Já me sentia parte daquilo, como se aquela não fosse apenas uma sala de vestibular, mas um passo concreto em direção a quem eu queria me tornar.
Quando sentei na sala, tudo se organizou por dentro. Aquela sempre foi a minha meta. Estudar ali. Construir meu caminho ali. Eu sabia disso com uma clareza rara. E, por isso, decidi que nada iria me atravessar. Nem o cansaço do mês inteiro, nem os barulhos do dia, nem o peso das semanas anteriores. Eu não deixaria nada me afastar daquele sonho.
Fiz a prova consciente, presente, inteira. Sabendo exatamente o que estava fazendo, e por quê.
Quando saí, perto do horário final, senti algo raro: alívio. Um alívio profundo. Como se, pela primeira vez em semanas, o tempo tivesse voltado ao lugar.
Liguei para minhas amigas da equipe. Descobri que éramos campeãs brasileiras também. Chorei. Não de cansaço, de pertencimento.
No caminho de volta para casa, pensei no quanto tudo aquilo tinha sido nosso. Mesmo longe fisicamente, eu tinha estado ali o tempo todo. Cada treino, cada escolha, cada renúncia.
Quando cheguei, finalmente pensei:
agora, sim, eu posso respirar.
E respirei.
Vivido por, Iris Teves.
